Para evitar surto da COVID-19, Prefeitura afasta 46 servidores após caso positivo na Administração

Construção, música composta e interpretada por Chico Buarque, fala de um operário que morreu, atrapalhando a economia. Nada mais atual, basta ver a quantidade de discursos defendendo a volta à normalidade.

É Fato! Enquanto relativizam a pandemia, pessoas morrem. O Brasil caminha a passos largos para ser o país com o mais alto número de vítimas da COVID-19, mas nos últimos dias só se fala nos empresários.

Os grupos de mídia tradicionais já demonstram constrangimento. Não questionam ônibus lotados… descaradamente, falam até na volta do futebol. Empreendedores enfileiram-se aos microfones para anunciar doações e pedir flexibilizações. Jornais e TVs, de olho nas publicidades, só faltam estender tapetes vermelhos.

Por aqui, no Cantegril ou na Cohab, a pé ou no BMW, o discurso do patrão ganha força também entre os trabalhadores. O medo da “lata de comida vazia” faz qualquer um ignorar o risco de adoecer – ou morrer. Não devemos condenar.

É do jogo capitalista vermos homens e mulheres subindo construções como se fossem máquinas, enquanto o presidente almoça com um ex-ator de Malhação e presidentes de times de futebol. Garanta-se o caviar deles – e o dos laboratórios médicos. Os nossos, que comam feijão com arroz como se fossem príncipes.

Nesta quarta-feira (20), 46 dos 50 servidores da Administração foram colocados em quarentena após uma servidora testar positivo para o coronavírus – o 37º caso registrado em Viamão. A secretaria foi isolada e passou por desinfecção, mas como “o Brasil não pode parar”, quatro trabalhadores – quatro vidas – estão lá, firmes em seus postos.

De acordo com o que apurou o colega Vilson Arruda com o Comitê de Operações de Emergência em Saúde (COE), todos estão trabalhando em ilhas separadas e serão monitorados diariamente. Há a garantia de atendimento médico se surgir mais algum sintomático.

Eu pergunto como estão essas pessoas emocionalmente? Que tipo de contato estão tendo com suas famílias, qual a qualidade dessas interações? Para mim, não basta verificar a febre, untar com álcool gel, dar EPI e dizer “’boa sorte’, contamos contigo”. Não aceito que uma vida valha tão pouco.

Não é só na Administração. Também tem servidor da informática e da secretaria de Obras e Serviços Públicos entre os casos suspeitos – todas atividades meio e não diretamente ligadas à Saúde.

Entre as atividades fim, três profissionais do Samu estão isolados aguardando exames. As equipes da linha de frente no atendimento à população trabalham sob tensão.

Oficialmente, Russinho – e ninguém da sua administração interina – emitiu posição oficial sobre a ameaça de surto no coração da Prefeitura.

Ontem (19), o secretário da Saúde afirmou na Câmara que o município tem 1,5 mil testes para identificar o vírus. Mas resta Glazileu Aragonês explicar em que situações estão sendo usados, pois nenhum dos colegas da servidora infectada foi testado. Apenas foram mandados para casa esperar 14 dias.

Já que existe, queria que a crise do coronavírus servisse para mudar conceitos. Que as pessoas olhassem para si, tivessem condições de definir seus próprios rumos. Querendo trabalhar, que se respeite. Contudo, o contrário também valeria. Aí, ao menos, o discurso de defesa do patrão seria consciente, e não copiado de quem está em casa enquanto outros correm riscos por ele.

Só se fala em cloroquina para justificar a volta ao batente. Chamam a Imprensa de alarmista enquanto o número de mortos só cresce. Não realizam testes e se amparam na subnotificação para alegar que “está tudo sob controle no RS”.

E entre o povo, há os que batem palmas.


Deixo pro Chico Buarque encerrar:

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague

Fonte: DV

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